O que pintei quando desisti de pintar
Paula Plee, livro "Alice Dote" (Barléu Editora), 2026
Olhares de si e do outro, paisagens cotidianas e a experiência do desejo vivenciada pelos corpos são algumas das temáticas recorrentes na obra de Alice Dote. No entanto, segundo a artista, todos seus trabalhos – das naturezas mortas aos retratos e autorretratos –, são permeados pela intimidade.
Essa intimidade e proximidade de que fala Alice não são apenas evocadas pelo que é representado em suas pinturas e desenhos, mas também pelo “diálogo-convite” que a artista nos oferece por meio de seus títulos. Através da linguagem, articulada à representação, a artista nos convida a adentrar seu mundo, compartilhando sensações e pensamentos sobre o que está sendo retratado, sobre seu fazer artístico e sobre o que a impulsiona a se manter viva através dele.
Ter, hoje, desejos que nos impulsionem à ação e à vida, em meio a um emaranhado informacional inserido em uma lógica neoliberal, é um grande desafio, segundo analisa Byung-Chul Han no livro Agonia do Eros. Para o autor, a cultura de consumo da internet, na qual nossos desejos são percebidos através de mercadorias, não abre espaço para a força imaginativa ou para o impulso de criação, que estariam subordinados aos bens de consumo e à cultura midiática. As obras de Alice Dote parecem fazer o exercício inverso. Em um mundo de possibilidades ilimitadas e no qual a vulnerabilidade não tem vez, a artista pousa seu olhar no outro e sobre si mesma, convidando-nos a adentrar seu espaço íntimo, repleto de trocas, em que o desejo aproxima.
Em Eros: o doce-amargo, Anne Carson investiga o Eros como uma força paradoxal que se estrutura na falta e na distância, no desejo pelo que está ausente, a partir da poesia e da filosofia gregas. Com relação à linguagem, a autora pontua que “o que existe de erótico na leitura (ou escrita) é o jogo da imaginação evocado no espaço entre você e o seu objeto de conhecimento”. Eros, o desejo, estaria então nesse espaço que nos desloca e amplia nossa percepção do mundo. Escreve-se porque algo não está presente, e lê-se em busca de algo que está em falta.
Alice parece exercitar esse deslocamento por meio da escrita dos títulos de seus trabalhos. Como uma espécie de confissão, os títulos podem ser pensados como cartas escritas e endereçadas ao espectador diante da obra. Segundo Carson, “as cartas tornam o ausente presente, e fazem isso de uma maneira exclusiva, como se fossem um código privado de quem escreve para quem lê”. Através dessa articulação entre obra e título, Alice se abre para compartilhar fragmentos de sua vida íntima, com representações que perpassam objetos e paisagens cotidianas, incluindo autorretratos e retratos de pessoas próximas.
Nesse sentido, é notável que em diversas obras, a artista se dedique a pintar representações de orelhas como na pintura em pequeno formato pintura de uma sentada (2025), primeiro de janeiro ainda fresco (2025) e uma história de quatrocentos séculos (2024), em uma provável referência à obra emblemática produzida por Vermeer, em 1665. Essa presença insistente, parece pertinente ao convite proposto pela artista, pois a escuta do outro é também um modo de enxergá-lo, a escuta é abertura, é se deixar penetrar pelo outro.
Os pequenos formatos chamam atenção também por exigirem uma aproximação física do espectador perante as obras. É como se Alice nos chamasse para perto, para conhecer a si e à sua obra de maneira mais direta. Nestes, a artista também parece dar preferência aos autorretratos e a objetos de uso cotidiano, como em sobras do autorretrato (2025), a pior pintura possível (2024), se eu tivesse algo a dizer (2024), o que tinha (2023) e le rouge 37 (2023). Esses objetos, assim como aqueles retratados em cenas cotidianas e íntimas – como em olhei tanto pra fome que ceguei ele disse e a mim faz falta a sua pintura (2025) ou isso não é uma ideia, é uma obra (2025) – funcionam como registros e vestígios de vida, de encontros, de algo que ficou para trás, tendo seu uso cotidiano fixado no tempo.
Também em pequeno formato, no papel, os desenhos em grafite ou marcador e as gravuras em ponta-seca se destacam pelos traços ágeis, que parecem registrar a urgência de fixar um momento fugaz, algo que nos escapa, mas que gostaríamos de guardar para sempre. Segundo a artista, os desenhos têm um gesto distinto da pintura: são rápidos, feitos de uma só vez, a partir da observação de um modelo vivo do cotidiano ou de si mesma diante do espelho, como em prefere qual? (2022), cujo título sugere um diálogo entre a artista e o modelo-vivo/interlocutor.
Em O Uso da foto, escrito em colaboração com seu então companheiro Marc Marie, Annie Ernaux afirma que “nenhuma foto traduz a duração do tempo". Ela aprisiona o momento.” A publicação traz fotos das roupas e acessórios de Annie e Marc tal qual eles os deixaram ao se despir antes do sexo, acompanhadas de textos de autoria de ambos, abrindo espaço para eles possam discorrer, a partir dos vestígios aparentemente banais capturados pela lente, sobre suas percepções, memórias e desejos, refletindo sobretudo a própria banalidade da existência, já que Annie, naquele momento, passava por um tratamento de câncer.
Na mesma medida em que é frágil e poderoso, o corpo é ponto de partida dos impulsos de criação e do desejo imaginativo. As dualidades entre vida e morte, amor e ódio, segundo Anne Carson, convergem no desejo erótico justamente por Eros estar presente na falta, no “desejo pelo que não está lá”. Quando se ama através do corpo, quando se cria, quando se pinta, é como se, momentaneamente, pudéssemos nos esquecer da nossa finitude. Uma foto, um registro, uma pintura, congelam um tempo específico, algo que queremos captar não só com o corpo, mas também com a mente.
Algo semelhante pode ser observado nos trabalhos de Alice Dote. A artista divide conosco não apenas momentos íntimos, mas também aspectos de seu processo, no qual, “obsessivamente” – palavra utilizada pela própria artista –, cria imagens que saciam sua fome. “Desejo, mas desejo de saber [...] “É como se a pintura me empurrasse a ir mais longe, mais fundo, mais outra” escreve a artista em um dos textos que acompanhou sua individual “O nome disso não é fome" (Banco do Nordeste Cultural Fortaleza, 2025-2026, Fortaleza, Brasil).
A fome, como metáfora e como vocabulário subjetivo, aparece em diversos trabalhos da artista, que afirma: “quanto mais eu pinto, mais fome eu tenho”. A colher surge então como objeto recorrente, funcionando como alegoria para pensar desejo e falta, fome e saciedade. Em histórias reais ou você sabe você vai se apaixonar artistas estão sempre apaixonados ou medo de engordar (2025), vemos três colheres dispostas sobre um fundo vermelho escuro, em uma composição que sugere relações de proximidade, observação e distanciamento.
Em no meu pescoço, fome e vontade de comer (2025), uma colher de prata flutua sobre um fundo rosa, com um laço de fita preta amarrado a seu corpo. A menção ao pescoço presente no título remete a tem um sad eyes (2023), autorretrato no qual a artista manipula um tecido preto ao redor de seu próprio pescoço. Já em por que foi se empanturrar antes do almoço? ou ifood no interfone (2025), a relação entre desejo e saciedade aparece de forma mais explícita, no registro de um corpo masculino logo após o sexo, e cuja o título pode nos levar a imaginar uma história por trás da pintura.
sabe, eu não preciso ir mais longe para saber (2025) também retrata um momento de vulnerabilidade pós-sexo. Nela vemos o torso de um homem nu, que repousa deitado sobre a cama, com as pernas afastadas e com o membro centralizado na composição, remetendo visualmente à obra L'origine de la guerre (A origem da guerra, 1989/2012), da artista ORLAN, que por sua vez, responde diretamente à L'Origine du monde (A origem do mundo, 1866), de Gustave Courbet.
As imagens que nos traz Alice são abertas às mais diversas interpretações. No entanto, o uso da linguagem através dos títulos dos trabalhos nos dão pistas sobre os contextos em que eles foram desenvolvidos ou referenciam o próprio fazer artístico, como em compulsivamente quando posso ou não é pintar que te faz pintora (2025), trabalho no qual vemos um vaso de flores, aparentemente ainda frescas, que repousam sobre uma poltrona de couro com acabamento em capitonê. Seu título sugere, porém, que a pintura parece ser menos sobre os objetos ali representados e mais sobre o que pintar representa para a artista, que exercita a pintura de maneira compulsiva.
Anne Carson, ao pensar o eros como força de conhecimento, afirma que “sempre que qualquer criatura é movida a buscar o que deseja, esse movimento começa com um ato da imaginação”. Desejar, imaginar e pensar operam nesse espaço entre, um espaço erótico. Ao construir uma paisagem sensível em que olhar, tocar, desejar e imaginar se complementam, os trabalhos de Alice Dote nos convocam a nos aproximar, a persistir nas imagens em busca dos sentidos que nos escapam.
Entre gestos, vestígios, objetos cotidianos, fragmentos de corpos e palavras endereçadas ao outro, a artista insiste na proximidade como forma de se relacionar com o mundo. Pintar, desenhar, observar e se deixar afetar tornam-se meios para se manter-se saciada e viva.
Referências Bibliográficas
CARSON, Anne. Eros, o doce-amargo: um ensaio. Tradução de Julia Raiz. São Paulo: Bazar do Tempo, 1. ed., 2022. ISBN 978-65-84515-22-2.
ERNAUX, Annie; MARIE, Marc. O uso da foto. São Paulo: Fósforo Editora, 2025. ISBN 978-65-60001-39-8.
HAN, Byung-Chul. Agonia do Eros. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. Tradução de Ênio Paulo Giachini. ISBN 978-85-326-5518-9.
What I painted when I gave up painting
Paula Plee, book "Alice Dote" (Barléu Editora), 2026
Gazes of self and other, everyday landscapes, and the experience of desire as lived through the body are recurring themes in Alice Dote’s work. Yet, according to the artist, all of her works — from still lifes to portraits and self-portraits — are permeated by intimacy.
The intimacy and sense of proximity Alice speaks of are not only evoked by what is represented in her paintings and drawings, but also by the “dialogue-invitation” the artist offers us through her titles. Through language, articulated with representation, she invites us into her world, sharing sensations and thoughts about what is being depicted, about her artistic practice, and about what drives her to remain alive through it.
Having desires today that propel us toward action and life, amid an informational tangle embedded within a neoliberal logic, is a major challenge, as Byung-Chul Han argues in The Agony of Eros. For Han, the internet’s consumer culture, in which our desires are perceived through commodities, leaves little room for the imaginative force or creative impulse, both of which become subordinated to consumer goods and media culture. Alice Dote’s works seem to perform the opposite movement. In a world of limitless possibilities, where vulnerability has little place, the artist directs her gaze toward others and toward herself, inviting us into her intimate space, filled with exchanges in which desire brings us closer.
In Eros the Bittersweet, Anne Carson investigates Eros as a paradoxical force structured around absence and distance, around the desire for what is missing, drawing on Greek poetry and philosophy. In relation to language, she points out that “what is erotic about reading (or writing) is the play of imagination evoked in the space between you and your object of knowledge.” Eros, desire, would therefore exist in this space that displaces us and expands our perception of the world. We write because something is absent, and we read in search of something that is lacking.
Alice seems to enact this displacement through the writing of her work titles. Like a kind of confession, the titles can be understood as letters written and addressed to the viewer standing before the work. According to Carson, “letters make the absent present, and they do so in an exclusive way, as though they were a private code between the writer and the reader.” Through this articulation between artwork and title, Alice opens herself up to sharing fragments of her intimate life, through representations that move across everyday objects and landscapes, including self-portraits and portraits of people close to her.
In this sense, it is striking that the artist repeatedly paints representations of ears, as in the small-format paintings pintura de uma sentada (2025), primeiro de janeiro ainda fresco (2025), and uma história de quatrocentos séculos (2024), likely referencing Vermeer’s emblematic work produced in 1665. This persistent presence seems particularly pertinent to the invitation proposed by the artist, since listening to another person is also a way of seeing them. Listening is an opening; it is allowing oneself to be entered by another.
The small formats also draw attention because they require the viewer to physically move closer to the works. It is as though Alice were calling us nearer, asking us to encounter both herself and her work more directly. In these works, the artist also seems to favor self-portraits and everyday objects, as in sobras do autorretrato (2025), a pior pintura possível (2024), se eu tivesse algo a dizer (2024), o que tinha (2023), and le rouge 37 (2023). These objects, like those depicted in everyday and intimate scenes — such as olhei tanto pra fome que ceguei ele disse e a mim faz falta a sua pintura (2025) or isso não é uma ideia, é uma obra (2025) — function as records and traces of life, of encounters, of something left behind, with their everyday use fixed in time.
Also in small formats, the graphite or marker drawings and drypoint prints stand out for their swift lines, which seem to register the urgency of capturing a fleeting moment, something that escapes us but that we would like to preserve forever. According to the artist, drawing involves a different gesture from painting: it is quick, made in a single sitting, from observing a live model in everyday life or herself before a mirror, as in prefere qual? (2022), whose title suggests a dialogue between the artist and the life model/interlocutor.
In The Use of the Photo, written in collaboration with her then-partner Marc Marie, Annie Ernaux states that “no photograph translates the duration of time. It imprisons the moment.” The publication presents photographs of Annie and Marc’s clothes and accessories exactly as they had left them when undressing before sex, accompanied by texts written by both. The images create a space in which they can reflect, through seemingly banal traces captured by the camera, on their perceptions, memories, and desires, ultimately reflecting on the very banality of existence, since Annie was undergoing cancer treatment at the time.
At once fragile and powerful, the body is the starting point for creative impulses and imaginative desire. The dualities between life and death, love and hatred, according to Anne Carson, converge in erotic desire precisely because Eros resides in absence, in the “desire for what is not there.” When we love through the body, when we create, when we paint, it is as though, momentarily, we could forget our finitude. A photograph, a record, a painting freezes a specific moment, something we want to capture not only with the body but also with the mind.
Something similar can be observed in Alice Dote’s work. The artist shares with us not only intimate moments but also aspects of her process, in which she creates images “obsessively” — the word she herself uses — producing works that satisfy her hunger. “I desire, but desire to know [...] It is as if painting pushed me to go further, deeper, more other,” the artist writes in one of the texts accompanying her solo exhibition o nome disso não é fome (the name of this is not hunger) (Banco do Nordeste Cultural Fortaleza, 2025–2026, Fortaleza, Brazil).
Hunger, both as metaphor and as subjective vocabulary, appears throughout the artist’s work. She states: “the more I paint, the hungrier I become.” The spoon consequently emerges as a recurring object, functioning as an allegory through which to think about desire and lack, hunger and satiety. In histórias reais ou você sabe você vai se apaixonar artistas estão sempre apaixonados ou medo de engordar (2025), we see three spoons arranged against a dark red background, in a composition that suggests relationships of proximity, observation, and distance.
In no meu pescoço, fome e vontade de comer (2025), a silver spoon floats against a pink background, with a black ribbon tied around its body. The reference to the neck in the title recalls tem um sad eyes (2023), a self-portrait in which the artist manipulates a black fabric around her own neck. In por que foi se empanturrar antes do almoço? ou ifood no interfone (2025), the relationship between desire and satiety appears more explicitly, in the depiction of a male body immediately after sex, with the title inviting us to imagine a story behind the painting.
sabe, eu não preciso ir mais longe para saber (2025) also depicts a moment of post-sex vulnerability. We see the torso of a naked man resting on a bed, his legs apart and his penis positioned at the center of the composition, visually recalling L'origine de la guerre (The Origin of War, 1989/2012) by ORLAN, which in turn directly responds to Gustave Courbet’s L'Origine du monde (The Origin of the World, 1866).
The images Alice presents are open to multiple interpretations. Yet the use of language through the titles provides clues about the contexts in which the works were developed or refers to the act of making art itself, as in compulsivamente quando posso ou não é pintar que te faz pintora (2025). In this work, we see a vase of flowers, apparently still fresh, resting on a tufted leather armchair. Its title suggests, however, that the painting is less about the objects represented than about what painting itself represents for the artist, who practices it compulsively.
When considering Eros as a force of knowledge, Anne Carson states that “whenever any creature is moved to seek what it desires, that movement begins with an act of imagination.” Desire, imagination, and thought operate within this space between, an erotic space. By constructing a sensitive landscape in which looking, touching, desiring, and imagining complement one another, Alice Dote’s works call us to move closer, to persist within the images in search of meanings that elude us.
Between gestures, traces, everyday objects, fragments of bodies, and words addressed to another, the artist insists on proximity as a way of relating to the world. Painting, drawing, observing, and allowing oneself to be affected become means of remaining both satiated and alive.
Bibliographical References
CARSON, Anne. Eros the Bittersweet: An Essay. Translated by Julia Raiz. São Paulo: Bazar do Tempo, 1st ed., 2022. ISBN 978-65-84515-22-2.
ERNAUX, Annie; MARIE, Marc. The Use of the Photo. São Paulo: Fósforo Editora, 2025. ISBN 978-65-60001-39-8.
HAN, Byung-Chul. The Agony of Eros. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. Translated by Ênio Paulo Giachini. ISBN 978-85-326-5518-9.

