Alice Dote e a política íntima do olhar
Victor Yves, Casca Archive, 2026
Origens
Alice Dote torna a intimidade visível sem torná-la simples. Nascida em Fortaleza, Ceará, em 1992, a artista visual e pesquisadora transita pela pintura a óleo, pelo desenho e pela gravura, desenvolvendo uma linguagem figurativa enraizada na experiência autobiográfica. Seus temas atravessam o erotismo e a sexualidade, a memória e o luto, convergindo naquilo que ela descreve como imagens da intimidade. Aqui, porém, a intimidade nunca está isolada do mundo. Dote a trata como um campo de disputa no qual os corpos são observados, desejados, lembrados e tornados públicos. Seu trabalho pergunta quem controla o olhar e o que muda quando a pessoa tradicionalmente posicionada como objeto desse olhar se torna autora da imagem. O erotismo se torna menos um tema do que um procedimento: uma maneira de se aproximar de superfícies, fragmentos, gestos, espaços domésticos e da distância instável entre si e o outro.
As seis obras selecionadas mostram como essa política do olhar se constrói por meio do enquadramento. Uma figura reclinada, sem camisa, e um cachorro compartilham um sofá vermelho intenso, enquanto a composição impede que vejamos a completude de ambos os corpos. Uma pia de banheiro se torna um estudo silencioso em cinzas, marrons, reflexos e rotina. Duas pinturas verticais aproximam o espectador de maneira extrema de torsos, roupas, dobras e pele exposta, transformando o recorte em uma forma carregada de atenção. Em outro momento, a cabeça de um cavalo surge em uma densa camada de tinta a óleo sobre um suporte oval de cobre, enquanto uma fruta suspensa se prolonga em uma delicada estrutura ramificada contra um campo claro. Ao longo dessas obras, Dote transita entre a imediaticidade corporal e os objetos silenciosos sem tratá-los como mundos separados. Uma pia, uma peça de roupa, um animal, uma fruta ou uma porção de pele podem carregar igualmente a pressão da lembrança e do desejo.
Coleções públicas
A pesquisa de Dote sobre a cidade amplia esse vocabulário da intimidade. Desde 2017, por meio do coletivo Narrativas Possíveis, ela atua na interseção entre arte, experiência urbana e cultura visual. É mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará, onde sua pesquisa investigou a caminhada, a escrita urbana e a produção de imagens no centro de Fortaleza. Essa formação é importante porque suas pinturas também funcionam como registros da proximidade: elas observam como os corpos ocupam os espaços, como os objetos retêm gestos e como a experiência privada é moldada por estruturas mais amplas de visibilidade.
Sua primeira exposição individual institucional, "o nome disso não é fome", foi apresentada no Banco do Nordeste Cultural Fortaleza entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026. Sua programação pública ampliou o trabalho por meio de conversas, performances, leituras coletivas, sessões de desenho ao vivo e oficinas, levando questões íntimas para um espaço cívico compartilhado.
Em 2026, Dote publicou sua primeira monografia pela Barléu Editora, reunindo cerca de sessenta pinturas, desenhos e gravuras produzidos nos últimos anos, acompanhados de um ensaio crítico de Paula Plee. A publicação marcou uma importante consolidação de uma prática já atravessada pelo trânsito entre Fortaleza, São Paulo, Barcelona e Rio de Janeiro, bem como por intercâmbios contínuos com artistas, instituições e grupos independentes de estudo.
Para a CASCA, Alice Dote importa porque seu trabalho recusa a velha oposição entre autobiografia e investigação social. O corpo é pessoal, mas também é político; a memória é privada, mas se forma em quartos, ruas, relações e sistemas de olhar. Suas pinturas sustentam essa contradição com uma ternura e uma tensão incomuns. Elas aproximam o espectador e, em seguida, tornam essa proximidade eticamente difícil, transformando o ato de ver em um encontro com o desejo, a vulnerabilidade e os limites daquilo que a imagem de outra pessoa pode revelar.
Alice Dote and the intimate politics of looking
Victor Yves, Casca Archive, 2026
Origins
Alice Dote makes intimacy visible without making it simple. Born in Fortaleza, Ceará, in 1992, the visual artist and researcher works across oil painting, drawing, and printmaking, developing a figurative language rooted in autobiographical experience. Her subjects move through eroticism and sexuality, memory and mourning, converging in what she describes as images of intimacy. Yet intimacy here is never sealed off from the world. Dote treats it as a contested field in which bodies are watched, desired, remembered, and made public. Her work asks who controls the gaze and what changes when the person traditionally positioned as its object becomes the author of the image. Eroticism becomes less a theme than a procedure: a way of approaching surfaces, fragments, gestures, domestic spaces, and the unstable distance between self and other.
The six selected works show how this politics of looking is built through framing. A reclining shirtless figure and a dog share a vivid red sofa, while the composition withholds the completeness of both bodies. A bathroom sink becomes a muted study in grey, brown, reflection, and routine. Two vertical paintings bring the viewer extremely close to torsos, clothing, folds, and exposed skin, turning cropping into a charged form of attention. Elsewhere, a horse's head appears in dense oil paint over an oval copper support, and a suspended fruit extends into a delicate branching structure against a pale field. Across these works, Dote moves between bodily immediacy and quiet objects without treating them as separate worlds. A sink, a garment, an animal, a fruit, or a patch of skin can all carry the pressure of remembrance and desire.
Public Collections
Dote's research into the city expands this intimate vocabulary. Since 2017, through the collective Narrativas Possíveis, she has worked at the intersection of art, urban experience, and visual culture. She holds a master's degree in Sociology from the Federal University of Ceará, where her research examined walking, urban writing, and image-making in downtown Fortaleza. That formation matters because her paintings also behave like records of proximity: they notice how bodies occupy rooms, how objects retain gestures, and how private experience is shaped by larger structures of visibility.
Her first institutional solo exhibition, "o nome disso não é fome," was presented at Banco do Nordeste Cultural Fortaleza from November 2025 to February 2026. Its public program extended the work through conversations, performances, collective readings, live drawing sessions, and workshops, opening intimate questions into shared civic space.
In 2026, Dote published her first monograph with Barléu Editora, gathering roughly sixty paintings, drawings, and prints from recent years, alongside a critical essay by Paula Plee. The publication marked an important consolidation of a practice already shaped by movement between Fortaleza, São Paulo, Barcelona, and Rio de Janeiro, as well as by sustained exchanges with artists, institutions, and independent study groups.
For CASCA, Alice Dote matters because her work refuses the old opposition between autobiography and social inquiry. The body is personal, but it is also political; memory is private, but it is formed in rooms, streets, relationships, and systems of looking. Her paintings hold that contradiction with unusual tenderness and tension. They bring the viewer close, then make closeness ethically difficult, turning the act of seeing into an encounter with desire, vulnerability, and the limits of what another person's image can disclose.


