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A arte como antídoto: de que forma a loucura e a sanidade se relacionam com a criação de uma obra
Manuela Azenha, Marie Claire Brasil, 2023
Traumas impronunciáveis, ativismo social, pesquisas históricas, percepções e experiências do corpo traduzidas na abstração de cores e figuras. A inquietação que faz pulsar a criação de artistas mulheres na cena contemporânea brasileira se anuncia por caminhos diversos.
“Não diria que temos mais mulheres produzindo, mas temos mais mulheres inseridas em contextos institucionais e mercadológicos”, afirma a curadora de arte Carollina Lauriano. “A potência dessa movimentação é a pluralidade dos discursos. Estão produzindo o que desejam. Há um conjunto de mulheres que muitas vezes estão pensando em si próprias, e muitas vezes pensando no mundo, mas a partir da própria vivência e realidade.”
Seria a criação artística um antídoto para o sofrimento? Ou seria justamente o contrário, ao colocar a artista em contato com aquilo que a desestabiliza? E de que forma a imprevisibilidade do mercado da arte profissional afeta a saúde mental de quem depende dele para sobreviver? Essas são algumas das questões sobre as quais refletem, nas páginas a seguir, seis mulheres que despontam na cena artística brasileira.
Alice Dote
Alice Dote adormece e acorda em meio a suas obras. Pinta enquanto assa o peixe e rascunha gravuras nas bandejas de isopor vazias. Faz anotações em pequenos pedaços de papel colados na parede. Transformou em ateliê o flat em São Paulo onde mora temporariamente desde janeiro, ainda sem data de volta ao Ceará, onde nasceu e cresceu. Sua primeira exposição individual foi em dezembro de 2022, na Casa Patu, em Fortaleza. Atualmente está com obra em uma mostra coletiva em Sobral.
Longe de casa e da família, a artista de 30 anos está disposta, ainda que com medo, a enfrentar traumas do passado. De um lado da sala, um tecido com um desenho de si mesma nua, vestindo apenas uma cinta peniana, e algumas anotações: “Como terminar a obra?”. De outro, telas feitas a partir de fotos antigas de sua infância cobrem a parede. No momento Alice explora dois temas: uma série de autorretratos em que aborda desejo, erotismo e nudez e sua mais recente pesquisa autobiográfica – um mergulho em suas próprias memórias. O que conecta essas duas linhas? O incômodo que geram, o tabu.
Uma menininha aparece repetidas vezes nessa espécie de álbum familiar composto por telas. De fralda, nos olha enquanto toma uma mamadeira. Depois, surge sentada em um sofá ao lado de Alice criança. E, mais uma vez, em uma pequena tela pintada a partir de um retrato 3x4. É Beatriz, sua irmã mais nova, morta aos 13 anos por suicídio. “Isso foi definidor da minha vida. Sabia que ia aparecer em minha pintura, mas não tive pressa. Há quem diga que a arte salva. Desconfio disso, porque se a arte nos salva é de certo anestesiamento do mundo”, diz Alice. “O que a gente experimenta ao criar é uma abertura para a inquietação, o desmargeamento. Ao mesmo tempo, não podemos perder todas as margens para conseguir dar forma e materializar o impronunciável que pede passagem. Sabendo os riscos de acessar suas doses de insanidade. Ninguém sai ileso.”
Art as an Antidote: How Do Madness and Sanity Relate to the Creation of an Artwork?
Manuela Azenha, Marie Claire Brasil, 2023
Unspeakable traumas, social activism, historical research, perceptions and experiences of the body translated into abstractions of colour and form. The restlessness that drives the work of women artists in Brazil’s contemporary art scene takes many different paths.
“I wouldn’t say that there are more women producing art, but there are more women entering institutional and market contexts,” says art curator Carollina Lauriano. “The power of this movement lies in the plurality of its discourses. They are producing what they desire. There is a group of women who are often thinking about themselves, and often thinking about the world, but from the perspective of their own lived experiences and realities.”
Could artistic creation be an antidote to suffering? Or might it be precisely the opposite, by bringing the artist into contact with what destabilises her? And how does the unpredictability of the professional art market affect the mental health of those who depend on it for a living? These are some of the questions reflected upon in the following pages by six women emerging in the Brazilian art scene.
Alice Dote
Alice Dote falls asleep and wakes up surrounded by her works. She paints while baking fish and sketches prints on empty polystyrene trays. She makes notes on small pieces of paper stuck to the wall. She has turned the flat in São Paulo where she has been temporarily living since January into a studio, with no date yet set for her return to Ceará, where she was born and raised. Her first solo exhibition took place in December 2022 at Casa Patu, in Fortaleza. She currently has work in a group exhibition in Sobral.
Far from home and her family, the 30-year-old artist is willing, albeit with fear, to confront traumas from the past. On one side of the room is a fabric bearing a drawing of herself naked, wearing only a strap-on dildo, alongside a few notes: “How do I finish the work?” On the other, the wall is covered with paintings based on old photographs from her childhood. At the time, Alice is exploring two subjects: a series of self-portraits addressing desire, eroticism and nudity, and her most recent autobiographical research — a dive into her own memories. What connects these two strands? The discomfort they generate, the taboo.
A little girl appears repeatedly in this kind of family album composed of paintings. Wearing a nappy, she looks at us while drinking from a bottle. Later, she appears sitting on a sofa beside Alice as a child. And once again, in a small painting based on an ID photograph. It is Beatriz, her younger sister, who died by suicide at the age of 13.
“That defined my life. I knew it would appear in my painting, but I was in no hurry. Some people say that art saves us. I’m suspicious of that, because if art saves us from anything, it is from a certain anaesthetisation of the world,” Alice says. “What we experience when we create is an opening towards restlessness, towards a dissolution of boundaries. At the same time, we cannot lose every boundary if we are to give form to and materialise the unspeakable that is asking to come through. Knowing the risks of accessing our own doses of insanity. No one comes through unscathed.”
